Quando cheguei, não queria acreditar no que via. Lá estava ele, a uns metros de mim. Estava a falar com uma mulher, o seu rosto quase que expressava o ar de quem tinha ganho uma lotaria esta noite, ou, perto disso. Senti de imediato um ódio por ela. Sabia que não estava lá muito certa, afinal, não a conhecia para sentir algo. Nem que fosse ódio. Mas sentia, e não estava com uma grande vontade de mudar o meu sentimento de ódio até para um sentimento de simpatia, ou, nem que fosse, um sentimento de interesse em saber quem era aquela criatura e o que ela queria dele. Fiquei a olhar para aquilo um bom bocado, e reparei o quanto animados e sorridentes estavam os seus rostos. Decidi não pensar naquilo esta noite, tirar a imagem da sua felicidade da minha cabeça e divertir-me o máximo que podia. Bebi tanto que, nem me lembro o quê, que misturas tinha feito e, o quanto tinha bebido. Passado algum tempo, dei por mim a olhar para eles, novamente. Senti uma raiva ainda maior. Depois pensei que não devia, nem podia sentir aquilo. Nós éramos amigos e eu não era namorada dele, logo, ele tinha todo e mais algum direito de fazer o que lhe apetecia. De qualquer modo, o ódio e a raiva aumentavam cada vez que eu reparava nos olhares que ela lhe deitava. Irritada com isso tudo, fui para fora. Por mais incrível que pudesse parecer, não me apetecia fumar. Que raio se passava comigo? Estava a agir muito estranhamente. Não sei quanto tempo fiquei sentada no banco aqui fora, mas quando olhei para o lado, dei de caras com ele, a sorrir. “Bem”, pensei, “aposto que já ganhaste a noite. Então, quando tu e aquela atiradiça abandonam a festa?”, nem é necessário dizer que não lhe disse nada disso do que pensei, porém, a vontade não me faltava. Apenas perguntei o que ele estava aqui a fazer, tendo, mais uma vez, o pensamento que deveria soar bastante sarcasticamente “Não devias estar lá dentro a dar atenção à tua nova amiga?”, não será de admirar, não voltei a pronuncia-lo em voz alta. Ele sorrio, como se conseguisse ler o que estava a pensar e, admito que, por momentos, senti-me um pouco embaraçada. Olhei para o lado para ele não reparar nisso, e, logo, ele tinha respondido “Não te vi mais lá dentro, por isso fiquei preocupado. Decidi, então, vir até cá fora, para ver se estavas cá.” Porque raio queria ele saber onde eu estava? Não estava ele ocupado demais para se preocupar com alguém, tipo eu? Não lhe respondi. Nem sabia o que deveria dizer, então, decidi sorrir, apenas. Permanecemos em silêncio alguns minutos. Não seria difícil de adivinhar quem tinha quebrado o santo silêncio. Eu, óbvio. Disse que tinha de ir para casa. Ele ficou um pouco confuso, pois ainda só eram duas da manhã. Desculpei-me, dizendo que estava cansada e não tinha uma grande vontade de continuar por lá e a beber. Quando ia para me virar e ir embora, ele fez-me parar e perguntou se me podia levar. Sorri. É claro que podia, até pensei que ele tinha sido um bocado burro em ter perguntado isso. Como eu estava bêbeda, ou meio bêbeda, e ele também tinha dado golos em uns belos copos, decidimos ir a pé. Não falávamos, pelo que achei que estávamos num ambiente um bocado estúpido. Para disfarçar a minha insatisfação, não sabendo bem porquê, olhei para o céu. A lua parecia-me tão grande. Para ser sincera, eu já não percebia se era a lua que estava grande, ou se eram os meus olhos que viam tudo com um zoom a trezentos porcento. Penso que ele tinha reparado na cara que eu tinha feito, pois tinha soltado uma gargalhada. Fiquei à toa, mesmo quando pensei que ele tivesse reparado na minha cara. De qualquer maneira, decidi perguntar porque raio estava ele a rir-se feito um louco. Silêncio. Boa, agora estava a falar para um boneco. Dei-lhe um empurrão para que dissesse alguma coisa, ele limitou-se a sorrir, mas penso que tinha visto o meu ar de zangada, disse a seguir, “Sim, realmente, a lua está bonitinnha hoje.”, e voltou a sorrir. Não percebia se era ele que lia tão bem as expressões faciais das pessoas, ou se era eu que pensei em voz alta. Quando chegamos ao portão da minha casa, agradeci-lhe e pedi desculpa, por em vez de se estar a divertir com a sua nova amiga colorida, perdeu o seu tempo com uma bêbeda que, metade do caminho passou calada e outra metade ficou parva com o tamanho da lua. Ele riu-se. Era impressionante. Ria-se por cada coisa que eu dizia. Depois de eu ficar a olhar para ele, tinha dito que não perdeu nada e até não se importava de aturar essa bêbeda e as conversas parvas sobre a lua, mais vezes. Sorri. Quando ia para me virar para abrir o portão, ele perguntou se amanhã não queria ir com ele beber um café. Por momentos, queria dizer “não”, mas depois pensei melhor e acenei com a cabeça. O rosto dele iluminou-se e os olhos começaram a brilhar. Ao tentar disfarçar a sua alegria, ele mostrou um sorriso, o mesmo que mostrava durante todo o tempo que estivemos juntos. Beijou-me a testa e desapareceu. Quando cheguei até minha cama, deitei-me e fiquei a pensar no que se tinha passado hoje. Ele tinha deixado a sua companheira só para me levar à casa. Aquele homem de certeza que não percebia bem o que estava a fazer. Depois pensei porquê é que eu não falei durante o caminho? E o que poderia eu ter dito? E, bem… O que poderia eu ter dito? Nenhumas palavras me vinham à cabeça e, aquelas que vinham, não pareciam certas. Lembrei-me do seu sorriso. Meu Deus, o sorriso daquele homem era lindo! Bom, não era só o sorriso. Mas quando sorria, era qualquer coisa do outro mundo. Ou tipo isso. Assim adormeci. A pensar nele e no seu acto de solidariedade, de ter levado uma bêbeda à casa deixando a outra meio sóbria. Acordei com o despertador a tocar. O facto de não o ter desligado na noite anterior, estragou-me logo a manhã. Céus, eram só sete horas e quinze minutos da manhã. Sim, fiquei irritada. Depois lembrei-me que por volta das oito, oito e meia, ele vinha até minha casa para me buscar, para irmos beber um café. Saltei da cama num ápice, tomei um bom duche e fiquei meia hora a olhar para o que ia vestir. Por fim, decidi levar algo simples. Quando a campainha tocou, fui a correr para abrir a porta, mas mesmo antes de virar a maçaneta, acalmei a respiração, olhei-me no espelho e abri-a. E ali, mesmo à minha frente, estava ele. A sorrir. Porque não me admirei? Disse-me apenas “Pronta?”, sem deixar de sorrir. Acenei com a cabeça, fechei a porta de casa e, no seu carro, fomos até um café. Ficamos lá mais ou menos duas, duas horas e meio, a falar. Quando saíamos do café, perguntou-me se tinha algo planeado para hoje. “Devido ao facto de ontem ter chegado a casa às, quase, três horas da manhã e hoje ter acordado às sete e um quarto, é um bocado óbvio que não tive tempo de combinar nada para hoje, não te faças de burro hoje e não me irrites!”, pensei. Credo, como poderia eu ser tão arrogante para ele? Nem que fosse nos meus pensamentos. Dei com ele a olhar para mim, pela sua expressão, tinha percebido que ainda não tinha dado nenhuma resposta. Disse que não e que estava completamente livre hoje. Sorriu. Tal como ontem à noite, o seu rosto iluminou-se. Penso que ele tinha combinado isso ainda ontem à noite, talvez seja por isso que ele nem se deu ao trabalho de me perguntar o que eu queria fazer. Levou-me para uma vila, onde não havia nem um único sinal da cidade. Estávamos rodeados de montanhas, natureza, e todas estas coisas que eu não apreciava muito. Acho que ele tinha percebido isso, pois garantiu-me logo que eu não iria passar seca. Sorri. Realmente, ele tinha razão. Levou-me para perto de um lago. O sítio era maravilhoso. E ele tinha razão. Não passei seca nenhuma. O tempo passou a correr e saímos de lá às onze da noite. A caminho de casa, levou-me a um restaurante para jantarmos. Não tinha fome, mas, para não parecer mal, pedi uma salada apenas. Falamos durante o tempo que lá estivemos e depois falamos no carro. Cheguei à casa perto de uma da manhã. Estava exausta. Não vou negar, passei um óptimo tempo com ele, mas realmente, estava cansada. No carro, ficamos a ouvir a música do Nick Lachey, “Beautiful”, a qual ele começou a cantar olhando-me nos olhos. Corei. “Meu Deus!”, pensei, “eu tenho de sair daqui imediatamente.”. Quando disse que tinha de me ir embora, ele acenou com a cabeça e esforçou um meio sorriso. Não queria parecer mal educada e, antes de abrir a porta do carro, agradeci-lhe por hoje e disse que já há algum tempo não me divertia tanto. Ele sorriu. Realmente, já estava a começar a irritar-me. Quando não obtive nenhuma resposta, tirando o sorriso, virei-me para abrir a porta. Ele agarrou a minha mão. Ai meu Deus! Parecia que algo dentro de mim alterou-se. Comecei a sentir arrepios e o meu coração ficou preso na garganta. Batia tão fortemente que parecia toda a rua o conseguia ouvir. Ele aproximou a sua cara e, com as suas mãos – bem suaves -, acariciou-me. Corei. “Mas que raio estás tu a fazer?”, pensei, “deixa-me sair daqui antes que faças algum disp…”, e fez. Fechou os olhos e beijou-me. Fiquei paralisada, mas retribuí. Enquanto ele me beijava, fiquei a pensar “Oh, meu Deus, meu Deus, como aquele homem sabia beijar!”. Depois disso, olhou para mim, não tirando as suas mãos da minha cara e, sorriu. Estava feliz. Consegui ver isso pela sua expressão. Bem, não era ele o único que o estava… Quando saí do carro, ele só me disse que amanhã, por volta do meio-dia, vinha buscar-me, pois tinha uma surpresa para mim. Acenei com a cabeça e sorri. À porta da minha casa, vi o seu carro a abalar. Olhei para a lua. Não estava assim tão grande como da outra vez mas, estava iluminada. Pensei, outra vez, no meu dia de hoje. Fiquei feliz por ele ontem ter-me levado à casa. A tarde fora magnífica, ele conseguia fazer-me rir, e tínhamos sempre sobre o que falar, por isso, nenhum de nós não passou nem um minuto de seca. Tirando aqueles momentos de silêncio dentro do seu carro. Mas ele parecia feliz e, por incrível que pareça, até eu parecia. Quando me deitei, voltei a lembrar o momento dentro do seu carro. Ele foi tão meigo. E beijava muito bem. Adormeci e, fiquei a sonhar com ele e com o nosso dia de amanhã. “Será lindo”, pensei, “tal como o de hoje.”.
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