Gostava que o meu sentimento mudasse como as estações do ano. Tudo segue a sua rotina. Ora uns meses está frio - não só nas ruas, mas como na minha alma -, ora os outros meses está calor - coisa que na minha alma não muda, como é irónico isso, não? Continuo aqui, com a mesma dor no peito e no meu coração. Mas é sempre difícil seguir em frente quando temos a sensação e a esperança que algo possa mudar. Pelo menos, é com a esperança que eu passo os meus dias.
Como tudo começou? Nem eu sei bem. Apenas começou. Uma conversa simples entre duas pessoas desconhecidas. Talvez se eu soubesse na altura que essa pessoa doce iria transformar a minha vida num inferno, nunca deixaria de me levar pelas conversas.
Hoje faz três anos que o conheço. E faz três anos que a minha vida não tem descanso. Deixei de me preocupar com a escola e com as notas. Alguns dos meus amigos já estão nas Universidades e eu continuo a "esforçar-me" para conseguir acabar o meu 12º ano. Estou a tirar Arte e quero seguir Arquitectura. Porém duvido que as minhas notas deixarão entrar-me no curso desejado, pois ao longo destes anos, as notas eram a última coisa que me preocupava. Estou consciente que faço coisas erradas. Que penso nas pessoas erradas e não faço o que realmente devo fazer. Mas não consigo controlar isso. 98% da minha mente é ocupada por ele e os outros 2% dividem-se entre tudo o resto, isto é: família, escola, amigos. Hum, diversão... Penso que isso já nem faz parte da minha vida. Três anos em plena espera de que ele saia da minha cabeça e me deixe ser feliz. Mas não. Ele não me permite essa satisfação.
Conheci-o no meu 11º ano e conheço-o três anos - sim, porque estou a repetir o meu 12º. Ele pareceu-me uma pessoa normal, porém diferente dos outros. Não tinha os mesmos hábitos nem os mesmos gostos do que as pessoas que eu conhecia. Era diferente, apenas. O que chamou logo a minha atenção. Muitas vezes amaldiçoei o dia e disse para mim mesma que mais valia eu ter estado doente ou ter tido algum acidente, do que aparecer na escola naquele dia. Eu não sei porquê, mas por entre todas as amigas minhas, eu fui quem mais chamou a atenção dele, também. Na altura, isso tinha-me deixado realmente feliz, pois ele apesar de ter sido diferente, era demasiado bonito e eu.... Bom, eu nunca fui a rapariga popular nem nunca nenhum rapaz tão bonito oferecia-me a sua atenção. Até ele. Quando ele o fez, por momentos senti-me nas nuvens. Só a simples ideia de que ele estava a dar atenção a mim e mais ninguém, provocava em mim uma sensação incrível e eu não estava disposta a "partilhá-lo" com mais ninguém. Sei que tínhamos ficado na conversa o resto do dia. Na parte da manhã eu fui a umas aulas, ele esperou por mim. Mas depois tinha faltado à tarde. Só assim devia ter percebido que ele era má companhia para mim, pois eu nunca faltei em minha vida. Mas no momento, não me tinha arrependido de nada. Ele contou-me partes da sua vida - dessa maneira percebi que a vida dele está muito longe de ser perfeita e que com os 22 anos dele já tinha passado por muito (sim, eu na altura tinha 16, quase 17, e ele 22 anos) -, mas não quis saber disso. Pelo contrário. Quis ser a pessoa que lhe mostrasse que a vida é bela e que nem todas as pessoas são tão más. Digamos que consegui o que queria.
Realmente, mostrei-lhe um lado completamente oposto da vida. Até ele próprio admitiu que tinha ficado encantado e que nunca pensou que um dia dissesse que ama a vida e gosta de viver. Os meus olhos brilharam tipo diamantes à luz do sol no exacto momento. Ele ao olhar para mim reparou nesse pequeno pormenor e agarrou-me pela cintura. Senti os braços dele em volta do meu corpo e lembro-me que as minhas pernas ficaram como pernas de algodão. Mal me aguentava de pé e estava completamente delirada. Ele era único. E era o único que alguma vez significou tanto para mim. Penso que talvez tenha sido exactamente isso que me prejudicou tanto.
Sete meses depois de nos conhecermos, ele pediu-me em namoro. Na altura eu tinha 17 anos, e ele seria o meu primeiro namorado a sério. É impossível descrever com as palavras o que senti no momento. Pensei que o meu coração não aguentasse e explodisse dentro de mim, sem dar-me tempo de lhe dizer "Sim, quero!". O pedido dele tinha sido dos mais românticos que alguma vez imaginei. Apesar de ter sido na escola, ele foi um amoroso. Era na altura dos exames do meu 11º ano, e ele sabia o quanto nervosa eu estava. No meio do exame, ele entrou na sala de repente, com uma única flor - túlipa branca -, chegou à minha beira e pediu-me em namoro. Foi lindo. Apesar de os professores não terem achado muita piada. Mas eu estava feliz. Já nem pensava no exame como deve de ser, fiz tudo ao calhas e sai da sala, para estar com ele. O ano tinha sido perfeito. Tanto para mim, como para ele. Ele tinha-me levado a sítios que nem eu conhecia. Mostrou-me um mundo completamente diferente. Uma coisa clara é que quando ele mostrava-me esse mesmo mundo, nem tudo era belo. Vi muitas coisas negativas, mas na altura nem liguei. Estava com ele, e o meu mundo com ele era único. E era apenas isso que importava para mim.
Ele fazia-me surpresas constantemente. Por tudo e por nada. Coisas simples. Mas cada vez que fazíamos um mês, dois, três, quatro meses de namoro, ele oferecia sempre algo "maior". E era sempre algo diferente. Ele possuía muita originalidade, coisa que me fazia gostar dele ainda mais.
Quando tínhamos feito seis meses de namoro, ele conheceu os meus pais. Tinha ido almoçar à minha casa. Os meus pais sabiam que eu namorava, ou melhor, desconfiavam, mas quando o conheceram, discordaram completamente da ideia. Diziam que ele não é a pessoa certa para mim e que ele só me vai meter em más vidas. Na altura não quis saber de nada disso, até gritei com eles, acusando-os de que eles nem querem ver a sua própria filha feliz. Algumas das palavras que disse magoaram a minha mãe, eu sei disso. Mas na altura não queria saber. Só queria saber dele. E os meus pais a não concordarem com o nosso namoro, dava-me ainda mais forças para namorar com ele e fazer tudo o que bem me apeteceria com ele. Assim aguentei mais seis meses. Os meus pais, aos poucos, iam-se acostumando que eu tinha namorado que eles nem podiam ver à frente, e que nem valia a pena dizer-me algo, pois nunca resultaria. Dessa maneira, deixaram-se estar. A verdade é que quando eles se acalmaram mais e já nem ligavam tanto ao namorado que eu tinha arranjado, eu comecei a chegar mais cedo a casa e tratá-los de uma maneira melhor. (Pois quando eles mostravam-se muito contra, eu podia passar noites fora de casa, só para os provocar ainda mais. Nem eu sei como conseguiram eles acalmar-se e acostumar-se à ideia se eu só lhes dava mais razões para o odiarem. A ele e a mim. Penso que eles apenas são muito compreensíveis, coisa com a qual eu tive sorte.)
Assim se tinham passado mais seis meses, o que fazia do nosso namoro durar um ano já. No dia em que fizemos um ano - era uma terça-feira -, ele disse que me buscaria a casa às 9:45 horas da manhã. Não fiquei completamente surpreendida, pois sabia que se ele fazia-me surpresas nos nossos um e dois meses de namoro, um ano de namoro seria alguma coisa mais especial. Eu sentia que ele gostava de mim e estava ansiosa pelo dia. Nosso dia.
Às 9:45 horas em ponto, ele estava à porta da minha casa. Com um enorme ramo de flores de várias cores. Deu-me um beijo e agradeceu pelo ano mais maravilhoso da vida dele, dizendo outras coisas ainda. Fiquei estupefata com isso tudo. Ele não tinha carro, apenas uma mota. Então naquela mota levou-me para algures que nem eu conhecia, ainda. Tínhamos chegado por volta das onze e pouco. Estava sol e vento ao mesmo tempo. Tínhamos feito um mini pique-nique - ele tinha preparado o comer todo, e estava delicioso. Ficámos horas na conversa, onde ele contou-me os maiores segredos da vida dele. Eu estava encantada e sentia que me apaixonava mais e mais. Nem sabia que era possível gostar tanto de alguém.
Nunca acreditei no amor tão forte, até ele. Na noite do nosso primeiro ano de namoro, aconteceu a minha primeira vez. Eu sabia que não era a primeira vez dele, mas não tinha a noção de que ele já o tinha feito tantas vezes. Ele tinha muita experiência e eu sentia-me embaraçada com algumas coisas. Sempre soube que a primeira vez para uma rapariga nunca é aquilo que ela imagina ser. Diziam-me sempre que é horrível, que se sente dores terríveis, entre outros. Mas não senti nada disso. A minha primeira vez, apesar de não ter sido tão confortável, foi meiga. Ele não fez nada com que eu sentisse tantas dores. E posso dizer que tinha corrido bem. Foi a primeira vez que passei dois dias fora de casa, pois no dia a seguir só cheguei às 21:55 horas. Os meus pais tinham ficado preocupados, mas já sabias que eu estava com ele. Só com ele consigo passar tanto tempo fora de casa. Ao chegar, fizeram-me muitas perguntas, às quais eu limitei-me a dizer "Está tudo bem. Fizemos um pique-nique e ficamos na conversa. E hoje ele apenas levou-me a um parque e almoçar fora e só conseguimos chegar agora. Não há nada com que se preocupar. Eu vou-me deitar, estou um pouco cansada" e com essas palavras tinha subido para o meu quarto. Não consegui dormir bem nesta noite. Fiquei a pensar se tinha feito a coisa certa em deixar-me levar pelo charme dele. Afinal, tinha 17 anos.... Mas, por outro lado, 17 anos já é uma boa idade para perder a virgindade. Eu estava perdida. No meu coração estava feliz e sabia que a minha relação não podia estar a correr melhor, mas na minha cabeça havia uma voz que gritava que tinha feito a maior asneira da minha vida. Porém, eu, por alguma razão, preferi não dar ouvidos a essa voz interior e foquei-me apenas no que o meu coração sentia.
Após esse dia, os dias se passavam e ele não me ligava. Nessas alturas estava a ficar preocupada. Não porque a minha voz interior podia ter razão em eu ter feito asneira, mas porque tinha medo que aconteceu algo com ele. Afinal, a mota não era o transporte mais seguro - pensava eu. Mas horas depois, recebi uma mensagem dele. A pedir desculpa pela ausência e que tinha assuntos a tratar. Quando quis saber mais detalhes sobre os assuntos tão importantes, ele mudou de conversa, sem dar-me uma mínima explicação. Fiquei preocupada, mas nem liguei. Pensei que talvez fosse alguma discussão com os pais ou algo com os amigos, pois se fosse algo grave, sabia que ele iria contar-me.
A nossa relação tinha ficado deveras estranha após a dita ausência dele. Não sabia quais eram os motivos de ele não me ligar como ligava nem dar-me a atenção à qual eu estava habituada. Fiquei com medo. Com medo de perdê-lo. Na altura não sabia ainda que dentro de uns dias passaria a odiá-lo mais do que outra pessoa qualquer.
Semanas mais tarde, senti-me mal. Não emocionalmente, fisicamente. Muito mal. Os meus pais não hesitaram em levar-me ao hospital, onde os médicos me fizeram logo todas as análises possíveis. Eu pensei para mim mesma "Para quê eles precisam de fazer tantas análises? Bastava tirar um pouco de sangue ou dar-me algum comprimido que fico bem!", mas não. Enquanto esperava os resultados, um médico chegou à nossa beira e chamou apenas os meus pais, como se tentasse fazer para que eu não ouvisse nada do que ele estava a dizer a eles. Reparei logo que a minha mãe ficou branca, como farinha, e desatou a chorar. O meu pai ficou mal, também. Não sabia o que se estava a passar mas fiquei com medo. Um medo de que ia levar um raspanete e ficar em casa até ao final do mês ou assim. A minha mãe não conseguia falar e o meu pai recusou em falar comigo. Fiquei furiosa. E penso que foi essa fúria que fez com que levantasse da cadeira e fosse eu falar com o médico. Falava em tom demasiado rude e com má educação, refilava porque fez ele os meus pais ficarem mal e provocou lágrimas à minha mãe. Ele olhou para mim e percebeu que eu não fazia a mínima ideia do que se estava a passar. Chamou-me apenas para o seu gabinete e perguntou quando foi a última vez que eu tive relações sexuais. Neste momento senti que fiquei vermelha cor-de-tomate. Não sabia como ele sabia disso, pois eu não fui a nenhum ginecologista e, pelo que eu saiba, é impossível determinar se a pessoa é virgem ou não pelas análises sanguíneas. Fiz-me de burra ao dizer que não tinha percebido a pergunta, porém o médico não hesitou e disse-me as palavras mais terríveis da minha vida. "Não tentes fugir do assunto nem arranjes desculpas algumas. Penso que o teu parceiro não tinha usado nenhum método contraceptivo, dizendo assim que o acto sexual que ocorreu entre ti e o teu parceiro, causou-te a doença sexualmente transmissível. Mais precisamente, SIDA." Neste momento senti o meu coração na garganta, fiquei mole ao ponto de desmaiar à sua frente. A notícia tinha-me matado por dentro. Implorei para que fizesse outras análises, mas não havia necessidade. Ele não se enganou nos resultados nem confundiu com ninguém. Era mesmo eu. A adolescente apaixonada que não soube escolher correctamente o seu primeiro namorado. Era no exacto momento que percebi o quão certos os meus pais estavam, em relação a ele. Ele não só trouxe-me a felicidade temporária, como também a dor e o inferno permanente. Eu, com 17 anos, já com SIDA pela estupidez minha.
Os meus pais tentaram ir à polícia, mas de nada valia. Eu não fui violada. Tive relações sexuais porque eu quis. Nenhum Órgão defensor conseguia defender-me e provar que eu sou inocente. Eu não era.
Ele tinha desaparecido da minha vida. Eu não sei se ele sabe da doença que possui. Quero saber que não sabe, porque se imagino - nem que seja por um minuto - que ele tem toda a noção disso, fico ainda mais estragada por dentro pelo facto de ele não me ter dito nada e ter-me usado. Namoramos há um ano e ele nunca veio com o assunto ao de cima. Ele estragou a minha vida. Profundamente. Hoje sou mais uma. Já não sou aquela rapariga especial que conseguirá mudar o mundo ou marcar a diferença. Não passo de mais uma rapariga sem cabeça, que se deixa iludir e estraga a sua vida, pela própria estupidez.
Já faz dois anos que vivo com a minha doença. Não sou feliz. Tenho encarado muitos problemas desde então. Alguns dos meus amigos viraram-se contra mim - a minha sorte é que muitos deles já nem estão comigo -, outros apoiaram-me - o meu azar é que também já não estão comigo. Eu fiquei a repetir o meu 12º ano, porque tinha chumbado em todos os exames pela primeira vez que estive no 12º. Não sei se vale a pena continuar a lutar pelo meu futuro, pois que futuro terei eu? Não poderei ter uma família, nunca terei filhos meus. Eu própria estraguei a minha vida. Perdi todo o amor à vida. Não vivo. Apenas existo. Por vezes prefiro morrer de vez e não causar tantos problemas à minha família, aos meus pais. Mas continuo aqui. Porquê? Para quê? Já nada faz sentido. Agora tudo o que tenho na minha vida são os meus pais - porém a relação deles mudou radicalmente para comigo. A minha mãe já não é a mesma e o meu pai é muito mais frio. E eu sei a razão. Eu tinha tudo. Sempre tive tudo. E eu mesma estraguei o meu mundo ideal. E eles estão desiludidos comigo, eu tenho noção disso. Mas agora já não posso mudar nada.
Muitas vezes ainda tentei entrar em contacto com o culpado do meu sofrimento, mas ele mudou de número. Penso que até mudou de cidade, o que me faz pensar que ele sabia perfeitamente da sua doença e apenas usou-se. Um ano. Fui usada durante um ano. A felicidade que senti nada compensa. Preferia nunca o ter conhecido. Nunca.
Hoje sei que quero a minha vida de volta. A minha antiga vida. A vida onde ele não fazia parte dela. Aí sim, sei que naquela altura eu era realmente feliz. Não hoje. Hoje sou apenas mais uma. Mais uma que anseia pela sua morte. Pois viver assim não é viver. Viver assim, não é para mim. Estou pronta. Pronta para partir...